SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE

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domingo, 6 de setembro de 2009

Ribamar: o maior ponta que o mundo viu

Por Dr. Catta-Preta, para o Blog do Marcello Lima.

Quando aos 24/09/32 Deus enviou ao mundo Ribamar de Oliveira, deu-lhe uma missão: encantar os semelhantes.

Ribamar nasceu em Coroatá, no Maranhão, Coroatá não sabia do projeto espiritual traçado pelo Criador para Ribamar, afinal no estado do Maranhão nascem Ribamares de três em três dias e todos são muito iguais, quase sempre trabalhadores humildes que no máximo acabam migrando para o sul para ajudar a erguer os arranha-céus do Brasil que a maioria do Brasil sequer conhece.

Aquele Ribamar não era um Adônis, não seria pela beleza física que iria se destacar. Nosso Ribamar foi à escola, mas não gostava de estudar; também não era pelo trato das letras ou pelo conhecimento das ciências que se avantajaria aos demais. Ribamar faltava às aulas para jogar futebol com os amigos. Nas peladas dos campos de várzea e dos campinhos das esquinas de Coroatá Ribamar começou a cumprir as ordens de Deus.

No par ou ímpar os meninos escolhiam seus times, já viram iguais, como se formam os times no par ou ímpar? Se juntam 10, 12 amigos para jogar uma pelada. Os líderes tiram par ou ímpar e quem ganhar começa a escolher os companheiros e assim vai, cada qual escolhe o seu, até se dividirem os jogadores entre um e outro time.

No tempo da infância de Ribamar ganhava o jogo quem ganhasse o par ou ímpar. Quem ganhasse o par ou ímpar escolhia logo o “Canhoteiro”, esse era o apelido do menino Ribamar, um canhoto que a bola amava de paixão. Era ter o Canhoteiro no time e vencer, simples assim.

Pudera. Canhoteiro desde que acordava, pela manhã, dedicava seus pensamentos à bola. Sentava-se à beira da cama e com o pé esquerdo levantava o chinelo trazendo-o até a mão como se fosse um malabarista. Imaginava que o chinelo fosse uma bola. Depois do almoço, Canhoteiro, cuja família só tinha três laranjas para a sobremesa, não saboreava a sua, levava-a consigo com a desculpa de chupá-la na rua. Uma vez livre dos olhares dos pais usava a laranja para fazer embaixadinhas, fazia mil, duas mil embaixadinhas com a laranja pelos caminhos e ruelas de Coroatá…

Coroatá não tinha time profissional. Aos dezesseis anos, Canhoteiro causava espanto aos moradores da cidadezinha, enfileirava às vezes sete, oito adversários driblando com uma habilidade que parecia ter aprendido em outro mundo. A fama do moleque correu pelo Maranhão, tanto proclamaram as suas façanhas que um olheiro do América, de Fortaleza, veio vê-lo jogar na várzea.

O olheiro podia até ser cego, mesmo que o fosse se encantaria com o alarido do povo, com os assobios, com as risadas de prazer, com os berros que todos davam, extasiados com a arte do menino. Os pais de Canhoteiro não acreditaram quando viram o filho levado pelo representante do time americano, Canhoteiro iria jogar em Fortaleza, seria profissional, aquele Ribamar seria o orgulho da humilde família Oliveira.

Canhoteiro chegou a Fortaleza e causou arrebatamento. Puseram o menino depois do primeiro treino para jogar em uma preliminar e ele driblou o marcador tantas e tantas vezes que o coitado perdeu a calma e foi expulso. O substituto foi humilhado, não achava a bola escondida com Canhoteiro; bateu, bateu e foi expulso também.
A fama de Canhoteiro iria se alastrar. Canhoteiro, uma criança, firmou-se no time principal, era a alegria de Fortaleza, os cearenses só falavam nele.

Em 1954 o São Paulo estava reformulando seu time. Depois da vitoriosíssima década de 40, os anos 50 eram de mudança de safra. Leônidas, o “diamante” já havia parado, Sastre já se fora, o infindável Teixeirinha encerrara a carreira, era preciso renovar. Um diretor foi veranear em Fortaleza. Em cada praia que visitava ouvia maravilhas sobre o canhoteiro Ribamar. Foi vê-lo atuar.

Imediatamente entrou em contato com o presidente Cícero Pompeu de Toledo, quase não podia conter as lágrimas ao descrever o que vira ao principal mandatário tricolor.

Cícero, à distância e embora incrédulo, orientou-lhe no sentido de que fizesse uma proposta ao América para trazer o jogador. Assim foi feito. A viagem do diretor se transformou em trabalho, prolongou-se, era uma questão de convicção contratar o malabarista da bola, o ponta que iria mudar a cara do futebol paulista.

Então Canhoteiro chegou. Ninguém deu nada por ele no primeiro treino. A imprensa nunca ouvira falar de Canhoteiro. Canhoteiro, no final do coletivo, foi chamado por Jim Lopes, o técnico sãopaulino, para integrar o time reserva. De Sordi, o lateral titular nunca mais veria coisa semelhante. O canhoteiro Ribamar driblo-o tanto que De Sordi, um consagrado craque teve um ataque de riso!

De Sordi ria, mas não ria sozinho, todo o elenco ria, Jim Lopes ria, era um verdadeiro espetáculo circense ver Canhoteiro driblar!


Aos 18/04/54 Canhoteiro, depois de assombrar nos treinos, foi colocado no time principal do São Paulo em um amistoso na cidade de Lins. Nunca mais saiu.

Canhoteiro era um gênio inigualável. Em Uberaba fizeram um torneio e convidaram, dentre outros, São Paulo e Fluminense. Canhoteiro deixou loucos os mineiros, na decisão, contra o Flu, Canhoteiro acabou com o jogo e ainda fez o gol do título; a carreira decolava aos olhos do Brasil.

Os estádios passaram a se encher, todos queriam ver o “mago”. O Pacaembu delirava vendo Ribamar inventar dribles como se desse ordens à bola que colava aos seus pés. Canhoteiro era ponta, ponta legítimo. Decretaram, com esse futebol de volantes e de alas, o fim dos pontas. O ponta jogava do meio para a frente, colado à linha lateral. Lançado, ia para cima do lateral que o marcava e buscava chegar à linha de fundo para cruzar para o centroavante ou para o meia que fechavam em velocidade em busca da bola.

O duelo entre os pontas e os laterais eram homéricos. Imaginem, iguais, Djalma Santos marcando Canhoteiro e comecem a formar opinião sobre o que era o futebol.

Ribamar humilhou todos os laterais que ousaram pará-lo. Canhoteiro era tão bom que um dia a Gazeta Esportiva estampou na capa que ele era o “inventor do drible”. Garrincha, o gênio, só tinha um drible, ameaçava, com uma ginga marota, sair pela direita uma, duas, três vezes e não saía. Quando saía efetivamente o marcador ficava anestesiado, parado, e “seu Mané” ia para a linha de fundo. Garrincha era um monstro, mas era um ponta que só tinha esse drible repetitivo.

Canhoteiro era um inesgotável criador de dribles, ninguém sabia se ele iria driblar para dentro ou para fora, para a esquerda ou para a direita, se iria dar um chapéu, com a bola no chão, se iria, de repente, de costas, puxar a bola por cima do corpo e sair com ela quase que por dentro do adversário.


Em nove anos de São Paulo, Canhoteiro transformou o futebol em um circo ambulante, onde ele ia a multidão se tomava de alegria.

Canhoteiro apanhava a bola no meio campo e saía intermitentemente driblando o lateral. Dava-lhe um drible, avançava, dava-lhe outro drible, avançava mais; eram dribles curtos, um após o outro, de repente já estava junto à bandeira de escanteio. Ali ficava de costas para o marcador ressabiado , o que iria fazer Canhoteiro? Então ele, num espaço exíguo, “espaço de um lenço”, diziam os antigos, ou dava um chapéu no pobre, ou girava o corpo para dentro e passava-lhe a bola entre as pernas seguindo para a grande área, onde punha Gino, ou outros, na cara do gol.

O Corinthians tinha um lateral chamado Idário. Idário era uma lenda corintiana, pela raça. Idário era a maior vítima de Canhoteiro. O lateral corintiano batia, era violento. Mas em Canhoteiro Idário não batia, porque não achava as pernas ligeiras do mago.

O Pacaembu viu, muitas vezes, Idário ser atirado ao fosso, enganado por aquele mágico, que amestrara e enamorara a bola.

Dino Sani, “Il Signore Sani”, o maior volante que o São Paulo teve, jogou muitos anos com Canhoteiro. Para ele nunca houve um jogador mais habilidoso e matreiro. Dino conta que Canhoteiro, no vestiário, antes e nos intervalos dos jogos, ouvia as preleções dos técnicos fazendo embaixadas com frutas, com caixas de fósforo e com moedas.

O imarcável Canhoteiro deveria ter sido titular absoluto na copa de 58, quando estava no auge da fama e da carreira, uma fuga da concentração para namorar mulheres de vida fácil ensejou seu corte. Imaginem Garrincha na direita e Canhoteiro na esquerda!

Seria um exagero, iguais, Deus não permitiu.


Canhoteiro, assim com Mané Garrincha, era simples, humilde, para ele, jogar bola era uma grande diversão. Na decisão paulista de 1957, Canhoteiro foi o dono do jogo, todo o time do Corinthians se preocupava com ele, ele abriu o espaço para que outros pudessem brilhar e ganhamos por 3×1.

Ribamar não gostava de treinar, aquecia seu talento no álcool, adorava a noite, as brincadeiras e principalmente os amigos, que o levavam para a diversão nas madrugadas da paulicéia feérica. Canhoteiro foi o primeiro jogador brasileiro a ter um fan clube. Reuniram-se muitos para celebrar seu nome, para segui-lo, aonde fosse.

Passaram-se os anos. Em 1963, quando fui ver meu primeiro jogo do São Paulo no Pacaembu, Canhoteiro despediu-se do tricolor.

Uma contusão no joelho o atormentava, mesmo assim foi jogar no México, muitos sombreros foram jogados ao alto para comemorar suas mágicas com a bola nos pés, tequilas foram consumidas à rodo pela atônita torcida mexicana e por ele, naturalmente.

Quando Canhoteiro se foi do Brasil os estádios brasileiros ficaram tristes. O México deve se orgulhar por ter sido a última pátria desse deus da bola.

Em 1974, numa noite chuvosa e fria, eu ouvia um noticiário da TV quando o apresentador anunciou a morte de Ribamar de Oliveira, prematuramente, aos 42 anos. Poucos sabiam de quem se tratava. Eu derramei muitas lágrimas, os são paulinos da velha guarda certamente choraram muito. O mago fora chamado por Deus para alegrar o paraíso, ele não era da terra.

Nunca mais se veria a bola ser tratada com tanta intimidade, nenhum zagueiro cairia mais nos fossos, o drible no espaço de um lenço jamais seria aplicado, o fan clube do ídolo se dissolveu.

Coroatá, terra natal de Canhoteiro, continua e continuará a trazer à luz, de três em três dias, muitos Ribamares; todo o Maranhão, afinal, produz e produzirá sempre muitos Ribamares, é uma produção em série.

Nenhum Ribamar de Coroatá ou do estado do Maranhão, no entanto, será igual àquele Ribamar vindo à luz em 1932, o Ribamar canhoteiro, o Ribamar gênio da bola, o Ribamar mago, o astuto Ribamar, o inventor do drible, o maior ponta que o mundoviu.

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